
Entro no comboio e sento-me num lugar perto da porta à espera do arranque. Ao contrário do que é normal, o comboio vai com pouca gente. Talvez seja do frio.
Pouco antes de arrancar, entra um casal cheio de sacos de viagem na composição. Cansados de vir a correr, sorriem um para o outro enquanto tentam encontrar um lugar para deixar os seus haveres.
O comboio arranca e o jovem casal senta-se à minha frente.
Ele, de barbas, chapéu e longas rastas, veste algo que se assemelha a um uniforme militar, mas destoa pelos rasgos e pins que parecem brotar do mesmo.
Ela, também de rastas e sorriso despreocupado, usa roupas coloridas e algo coçadas pelo uso e pelo tempo.
Falam não muito alto mas o suficiente para perceber que planeiam acampar no Alentejo, enquanto referem peripécias passadas com a mesma leveza com que falam de projectos futuros.
Dei por mim com uma ponta de inveja. Não pelo estilo de vida, mas olhando-os, sinto que são livres.
Livres de obrigações, livre de problemas, livres de ocupações, livres de... Simplesmente livres.
Vivem um dia após outro, alheios às amarras da sociedade, talvez conscientes de que não poderão viver sempre assim, mas sem que tal lhes iniba o sabor de liberdade.
Ao contrário de muitos, eles sabem que o dinheiro pode ser uma droga como outra qualquer a partir do momento em que deixamos de ter tempo para usufruir o que ele nos pode dar e desejamos mais. E mais, e mais, e mais...Até descobrirmos que passámos pela vida como um ciclista desejoso de cortar a meta que nunca chega. Pois bem, a meta é a morte.
Sim, invejo-os pela minha incapacidade em fugir à norma, pela pouca vontade em seguir em direcção ao sol poente, contentando-me em ser apenas mais um pinguim. De headphones.
Ena, headphones, és mesmo rebelde...

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