segunda-feira, março 03, 2008

UMA AVENTURA...no centro de saúde

6:45

Aproximo-me do Centro de Saúde na esperança de ser dos primeiros a chegar e com a recomendação da funcionária ainda martelando na memória: "Olhe, vá muito cedo que as vagas esgotam depressa!"


Um, dois...Vá lá, parecem poucos à espera.


Dois...E o resto! Ao aproximar-me da porta apercebo-me de mais utentes que largaram o calor de suas casas e enfrentaram o frio decorrente do amanhecer.


Oito, nove...Doze. Doze pessoas, na sua maioria idosos, enganam o sono com comentários esporádicos.

"Você está para que Doutor?" - pergunta um senhor de bigode e dos seus sessenta anos, encostado ao parapeito da janela.

"Quem está para a Doutora..." - questiona uma senhora de óculos e longo sobretudo negro acabada de chegar.

7:30

A quantidade de utentes aumenta, desfazendo-se a segregação de género que encontrei à chegada (homens à direita, mulheres à esquerda), tal como à entrada de uma qualquer mesquita. Seria uma manifestação de velhos hábitos enraizados nas origens beduínas do nosso povo? Educação made in Estado Novo? Ou somente mero acaso? Bem, Salazar não gostava de misturas entre sexos e o Cardeal Cerejeira...

"Isto parece uma festa!" - Os meus pensamentos são interrompidos por alguém que comenta o ajuntamento entretanto formado à porta do Centro.

Só então reparo que a meu lado havia uma roda de idosos, estando um deles, com uns setenta anos bem entrados, a contar como tinha chegado às seis da manhã e que não tinha conseguido chegar primeiro, pois aquela senhora ali do canto (identificou a idosa com o olhar), já tinha chegado.

Estranho desporto este do chegar-primeiro-ao-centro-de-saúde, qual será o prémio? Uma gripe por esperar ao frio?

8:00

Abrem finalmente as portas de acesso ao interior. Apesar de lá fora o frio não apertar, sentimo-nos mais reconfortados no ambiente controlado do ar condicionado.

As funcionárias do atendimento entram ao serviço e logo o povo corre em direcção a estas, acabando tudo ensanduichado contra o balcão. Com o humor próprio (mau) das segundas-feiras, uma das funcionárias dispara: "Aqui não se fazem consultas do dia!"

A colega tenta meter alguma ordem na mole humana e então assiste-se ao espectáculo de pessoas trocando de posição, esquerda para a direita, direita para a esquerda, para a frente e para trás, como se fossem sardinhas de escabeche em busca da melhor posição numa minúscula lata.

Alguém mais stressado diz para a pessoa ao lado: "Que pouca vergonha, não sabiam meter umas senhas para evitar estas confusões?!?"

A funcionária interrompe o atendimento em mãos e talvez ainda ressacada de alguma manif de trabalhadores do estado, diz alto e bom som: "É, e depois atrasava-nos a vida toda, não? Chamávamos as pessoas e elas não vinham! Assim está muito bem!..."

Perplexo com esta afirmação e ainda a tentar perceber o alcance da mesma, dou conta que, qual gelo polar a descendo o glaciar, estou quase a tocar o balcão.

Enquanto preparava a documentação, ouço a utente à minha frente pedir uma consulta:

"Para quando é que quer?" - pergunta a funcionária, apressada.

"Era p'ra amanhã..." - responde a sexagenária com chapéu de inspiração soviética.

- É o número sete, próximo!

- Mas...É de manhã ou de tarde?

A funcionária levanta a cabeça e talvez espicaçada pelos achaques daqueles dias difíceis do mês, responde de forma ríspida:

- Claro que é de manhã!!! O Doutor atende só de manhã! Próximo!!!

Chego-me à frente e peço uma consulta para um certo dia, ao que a funcionária responde maquinalmente, registando os meus dados e anunciando como se fosse a lotaria:

- Número oito, próximo!...

Ainda tentei expressar a minha admiração por já haver sete pessoas à minha frente, mas desisti pois a funcionária já estava com outra pessoa.

8:30

No caminho de regresso pensei no que fariam as funcionárias no resto do dia, pois se atendiam os utentes todos até às nove da manhã, o que fariam depois?...

Foi então que reparei numa máquina de snacks e cafés...


THE END

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