Há alguns anos (mais do que a saudade gostaria), fui estudar para uma Universidade do interior cujo Campus em construção estava fora da urbe principal e sedeada numa localidade chamada Repeses.
Naquele tempo, o centro de Repeses ainda retinha muitas características das aldeias beirãs, as casas em pedra de granito, a senhora que deixava o pão à porta, o tasco central/sede do clube de futebol...Farmácia? Multibanco? Isso eram luxos que apenas se encontravam na cidade, local distante e só acessível de carro ou através da carreira.
De igual modo, para fazer as compras tínhamos de descer à urbe para ir ao Pingo Doce ou ao Modelo, pois em Repeses havia só dois minimercados para abastecer uma população de milhares de alunos.
Dois é favor, um era mais uma loja de aldeia em que ao lado da minúscula mercearia da D. Eva, senhora sorridente e bem entrada nos cinquentas (sessentas?), havia um balcão de madeira onde os homezzz...da terra bebiam um copo de tinto servido pelo bigode-marido-da-D.-Eva, enquanto discutiam as peripécias do futebol nacional.
Fosse pelas moscas que cortavam o ar, pelo cheiro a tinto carrascão ou pelo ar decrépito do mobiliário tipo Estado Novo, certo é que frequentei poucas vezes este resquício de loja comunitária.
Já o segundo, que ficava a 50 metros de minha casa, podia considerar-se digno de uma inspecção da ASAE, a higiene era aceitável e os produtos estavam (quase sempre) dentro do prazo e sem pó.
Chamávamos "O Costa", pois à falta de dístico à entrada, baptizámos o minimercado com o nome do patrão. Quer dizer, patrão, patrão...só se fosse dele próprio, pois lá só trabalhavam ele e a mulher.
O Costa era uma personagem curiosa, pois a primeira impressão que dava aos estudantes que lá iam abastecer era algo: "Mmm...Mais uns vagabundos que vêm para aqui roubar..."
E lá ficava ele de soslaio a olhar para nós, fingindo mexer nas prateleiras, enquanto a mulher nos esperava na Caixa Registadora. Parecia estarmos em casa alheia onde alguém tinha medo que roubássemos as pratas.
Possuía também uma estranha fixação pela máquina de cortar fiambre, pois sempre que lhe pedíamos fiambre, demorava uma eternidade para cortar 150 gramas do dito, tal a vontade em cortar as fatias de forma perfeita e quando o terminava, exibia um sorriso que não ficava longe do Freddy Krueger...
Por falar em gente repelente, lembrei-me do Nuno, ex-colega de curso que chegou a morar por cima do Costa. Personagem queirosiana, o Nuno era oriundo de uma aldeia transmontana e de certeza foi educado na velha máxima: "Macho que é Macho vai às putas e bate na mulher", pois se não ia às ditas (que se soubesse, claro), gostava bastante de enganar as namoradas e exibir as conquistas extra-namoro aos demais, ostentando nesses momentos um sorriso que se traduzia por: "Olhem para mim a comer isto, sou mesmo macho, o rei da capoeira!..."
Mas o Nuno não me ficou na memória por essa razão, ficou pela seguinte história, que tem o seu quê de cómica.
Certa vez estava num bar com pessoal do curso, estando incluído na malta o Nuno.
Eis que chega à porta do bar uma rapariga com quem tinha começado a andar há poucos dias e o Nuno, no seu jeito muito próprio, disparou a seguinte bomba:
"É pá, a semana passada vi aquela ali na ****** (discoteca da moda) e fazia-se aos gajos todos! Deve ser cá um maquinão a f**** na cama...Alguém a conhece?"
Os meus colegas ficaram entre a indiferença (quem não sabia) e a incredulidade (quem sabia), esperando a minha reacção.
A princípio pensei em descompôr o rapaz, mas...fiz melhor que isso.
"Sim, conheço!..." - respondi, em tom alegre "Queres conhecer?"
"Quero!!!" - Respondeu o Nuno, antecipando já a pinocada.
Levantei-me e chamei-a.
- *****! Anda cá, quero que conheças uma pessoa...
(Beijo na boca)
- Olha, este é o Nuno...Disse que te queria conhecer...
A minha ex estranhou a frase, mas deve ter estranhado ainda mais a cara do Nuno (Se o chão tivesse um buraco...) perante tal situação.
Os meus colegas mal puderam conter o riso...
Desde então o Nuno nunca mais me falou. Não posso dizer que lamento, pois machos daqueles não fazem bem à saude mental de ninguém.
A última vez que ouvi falar dele foi através de uma colega que me informou que o Nuno é Vice-Gerente de um Pingo Doce. E que continua a enganar as namoradas...
"Coitadas das funcionárias" - Pensei.

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