terça-feira, março 23, 2010

Quem tem razão?



Rui Miguel Abreu, colaborador da BLITZ, responde a artigo "O Hip Hop também mata" (DN)

Jornalista, radialista e especialista em hip-hop, Rui Miguel Abreu responde a artigo publicado no Diário de Notícias sobre morte de rapper português.

A morte de Nuno Rodrigues, o rapper português mais conhecido por MC Snake , alvejado pela polícia na semana passada, continua a fazer correr tinta.

O assunto é hoje um dos mais comentados em redes sociais como o Facebook, graças a um artigo publicado ontem, no Diário de Notícias.

Intitulado O Hip-Hop Também Mata , o artigo de opinião, assinado por Alberto Gonçalves , analisa as reacções à morte de MC Snake.

"Ao contrário dos familiares, de uma contenção apreciável dadas as circunstâncias, a maioria repetiu a tese de que o sr. Rodrigues morreu por ser preto, pobre, rapper e, aos olhos da polícia, um estereótipo . É possível, embora a responsabilidade pelo estereótipo caiba inteirinha ao sr. Rodrigues", escreve o sociólogo.

Sobre o estilo musical em que MC Snake, colaborador de Sam The Kid, pretenderia, em breve, lançar-se a solo, Alberto Gonçalves exprime também uma opinião forte.

"O rap ou o hip hop que o sr. Rodrigues praticava não o transformava no 'músico' referido em diversos obituários. No seu primarismo, o hip hop tem pouco a ver com música e muito a ver com uma atitude de confronto face a uma sociedade que é, ou que se imagina, discriminatória. É, vá lá, um estilo de vida, traduzido à superfície no vestuário ridículo e nos gestos animalescos. E nas letras das 'canções' (?). As letras, que certa 'inteligência' considera 'poesia das ruas', são, além de analfabetas, manifestações de rancor social. Por norma, são também glorificações do crime e panfletos misóginos".

A este artigo, que pode ser lido na íntegra na edição on-line do Diário de Notícias , Rui Miguel Abreu, jornalista e radialista especialista em hip-hop, além de colaborador permanente da BLITZ, respondeu com uma intervenção publicada no seu blog e no Facebook.

"Eu não conhecia o senhor Nuno Rodrigues e pouco conhecia do MC Snake. No entanto nunca ousaria presumir conhecer quais as escolhas que tanto o homem como o MC fizeram em vida", escreve Rui Miguel Abreu.

"Certezas tenho em relação à sua condição: sei que não escolheu a cor de pele com que nasceu, nem o bairro em que cresceu ou as oportunidades e obstáculos com que se deparou. Não sei sequer se terá escolhido o hip hop ou se terá sido o hip hop a escolhê-lo a ele. Sei é que se por acaso Snake se encaixava em algum estereótipo isso não terá certamente resultado de uma escolha. Ninguém escolhe ser uma casualidade, uma estatística ou um número. E quem escolhe o hip hop almeja sempre a superação e a sobrevivência - ou seja, a fuga ao estereótipo, a recusa de ser uma mera entrada num catálogo estatístico qualquer".

Rui Miguel Abreu contesta ainda "a genealogia" traçada por Alberto Gonçalves para o hip-hop.

"Cada uma destas 'preciosidades' mereceria em si uma longa refutação, mas optando pela mesma estratégia telegráfica e sabichona do senhor Gonçalves, permito-me apenas dizer que o Black Power influenciou muito mais uma senhora como Nina Simone , que imagino que faça parte da sua colecção politicamente correcta de CDs (...), do que os pioneiros Afrika Bambaataa e Grandmaster Flash (nomes ridículos, já sei...) que em meados dos anos 70 estavam muito mais preocupados em fazer a festa do que a revolução. E depois, claro, vem o exemplo Uncle Tom do Louis Armstrong, o preto que se portava bem e até cantava a plenos pulmões como o mundo era bonito, coisa que Rosa Parks não percebia lá muito bem".

3 comentários:

Anónimo disse...

lá pensam que são como o 50 cent, que levou 8 tiros e anda aí como o aço

Chantinon disse...

Esse mês irei assistir ao show do Africa Bambaataa, que fique claro isso!

Porém, na minha opinião hip hop, funk e outra tralha de porcarias são músicas de marginais.

Não existe revolução ou manifesto em simplesmente citar palavrões e sexo sujo em letras idiotas.

E isso não tem nada haver com raça. Lembra do clip do Eminem matando a mãe?

Pode ser negro ou branco, se esse que morreu fazia apologia a esse tipo de coisa, ele é só um numero, e digo mais, um a menos!

kimikkal disse...

Acho que os dois têm razão, pois existem as duas realidades dentro do hip hop.

Muitos acham-se os novos 50 Cent e copiam descaradamente esse tipo de artistas deixando-se levar pelos clichés armas-drogas-carros-mulas boas.

Felizmente que houve, há e haverá sempre uma franja que possui um discurso mais articulado, com uma visão que transcende os ghettos musicais (e não só) do hip hop e tem uma vontade genuína de mudar o status quo.

A qual dos dois grupos pertencia MC Snake?

Boa pergunta, não o conheci suficientemente para dar uma opinião definitiva, apenas sei que o seu "padrinho", Sam the Kid é um dos melhores representantes em Portugal do segundo grupo.