6:45
Aproximo-me do Centro de Saúde na esperança de ser dos primeiros a chegar e com a recomendação da funcionária ainda martelando na memória: "Olhe, vá muito cedo que as vagas esgotam depressa!"
Um, dois...Vá lá, parecem poucos à espera.
Dois...E o resto! Ao aproximar-me da porta apercebo-me de mais utentes que largaram o calor de suas casas e enfrentaram o frio decorrente do amanhecer.
Oito, nove...Doze. Doze pessoas, na sua maioria idosos, enganam o sono com comentários esporádicos.
"Você está para que Doutor?" - pergunta um senhor de bigode e dos seus sessenta anos, encostado ao parapeito da janela.
"Quem está para a Doutora..." - questiona uma senhora de óculos e longo sobretudo negro acabada de chegar.
7:30
A quantidade de utentes aumenta, desfazendo-se a segregação de género que encontrei à chegada (homens à direita, mulheres à esquerda), tal como à entrada de uma qualquer mesquita. Seria uma manifestação de velhos hábitos enraizados nas origens beduínas do nosso povo? Educação made in Estado Novo? Ou somente mero acaso? Bem, Salazar não gostava de misturas entre sexos e o Cardeal Cerejeira...
"Isto parece uma festa!" - Os meus pensamentos são interrompidos por alguém que comenta o ajuntamento entretanto formado à porta do Centro.
Só então reparo que a meu lado havia uma roda de idosos, estando um deles, com uns setenta anos bem entrados, a contar como tinha chegado às seis da manhã e que não tinha conseguido chegar primeiro, pois aquela senhora ali do canto (identificou a idosa com o olhar), já tinha chegado.
Estranho desporto este do chegar-primeiro-ao-centro-de-saúde, qual será o prémio? Uma gripe por esperar ao frio?
8:00
Abrem finalmente as portas de acesso ao interior. Apesar de lá fora o frio não apertar, sentimo-nos mais reconfortados no ambiente controlado do ar condicionado.
As funcionárias do atendimento entram ao serviço e logo o povo corre em direcção a estas, acabando tudo ensanduichado contra o balcão. Com o humor próprio (mau) das segundas-feiras, uma das funcionárias dispara: "Aqui não se fazem consultas do dia!"
A colega tenta meter alguma ordem na mole humana e então assiste-se ao espectáculo de pessoas trocando de posição, esquerda para a direita, direita para a esquerda, para a frente e para trás, como se fossem sardinhas de escabeche em busca da melhor posição numa minúscula lata.
Alguém mais stressado diz para a pessoa ao lado: "Que pouca vergonha, não sabiam meter umas senhas para evitar estas confusões?!?"
A funcionária interrompe o atendimento em mãos e talvez ainda ressacada de alguma manif de trabalhadores do estado, diz alto e bom som: "É, e depois atrasava-nos a vida toda, não? Chamávamos as pessoas e elas não vinham! Assim está muito bem!..."
Perplexo com esta afirmação e ainda a tentar perceber o alcance da mesma, dou conta que, qual gelo polar a descendo o glaciar, estou quase a tocar o balcão.
Enquanto preparava a documentação, ouço a utente à minha frente pedir uma consulta:
"Para quando é que quer?" - pergunta a funcionária, apressada.
"Era p'ra amanhã..." - responde a sexagenária com chapéu de inspiração soviética.
- É o número sete, próximo!
- Mas...É de manhã ou de tarde?
A funcionária levanta a cabeça e talvez espicaçada pelos achaques daqueles dias difíceis do mês, responde de forma ríspida:
- Claro que é de manhã!!! O Doutor atende só de manhã! Próximo!!!
Chego-me à frente e peço uma consulta para um certo dia, ao que a funcionária responde maquinalmente, registando os meus dados e anunciando como se fosse a lotaria:
- Número oito, próximo!...
Ainda tentei expressar a minha admiração por já haver sete pessoas à minha frente, mas desisti pois a funcionária já estava com outra pessoa.
8:30
No caminho de regresso pensei no que fariam as funcionárias no resto do dia, pois se atendiam os utentes todos até às nove da manhã, o que fariam depois?...
Foi então que reparei numa máquina de snacks e cafés...
THE END
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segunda-feira, março 03, 2008
sexta-feira, fevereiro 01, 2008
Just another day in Oporto
Entro no comboio e sento-me num lugar perto da porta à espera do arranque. Ao contrário do que é normal, o comboio vai com pouca gente. Talvez seja do frio.
Pouco antes de arrancar, entra um casal cheio de sacos de viagem na composição. Cansados de vir a correr, sorriem um para o outro enquanto tentam encontrar um lugar para deixar os seus haveres.
O comboio arranca e o jovem casal senta-se à minha frente.
Ele, de barbas, chapéu e longas rastas, veste algo que se assemelha a um uniforme militar, mas destoa pelos rasgos e pins que parecem brotar do mesmo.
Ela, também de rastas e sorriso despreocupado, usa roupas coloridas e algo coçadas pelo uso e pelo tempo.
Falam não muito alto mas o suficiente para perceber que planeiam acampar no Alentejo, enquanto referem peripécias passadas com a mesma leveza com que falam de projectos futuros.
Dei por mim com uma ponta de inveja. Não pelo estilo de vida, mas olhando-os, sinto que são livres.
Livres de obrigações, livre de problemas, livres de ocupações, livres de... Simplesmente livres.
Vivem um dia após outro, alheios às amarras da sociedade, talvez conscientes de que não poderão viver sempre assim, mas sem que tal lhes iniba o sabor de liberdade.
Ao contrário de muitos, eles sabem que o dinheiro pode ser uma droga como outra qualquer a partir do momento em que deixamos de ter tempo para usufruir o que ele nos pode dar e desejamos mais. E mais, e mais, e mais...Até descobrirmos que passámos pela vida como um ciclista desejoso de cortar a meta que nunca chega. Pois bem, a meta é a morte.
Sim, invejo-os pela minha incapacidade em fugir à norma, pela pouca vontade em seguir em direcção ao sol poente, contentando-me em ser apenas mais um pinguim. De headphones.
Ena, headphones, és mesmo rebelde...
quinta-feira, março 29, 2007
"Uma moeda, uma moeda..."
Estaciono o carro no parque da Feira de Março e logo duas meninas dos seus 8 e 10 anos abeiram-se de mim de mão estendida e sorriso nos lábios.
Abro a porta e começa o mantra tantas vezes repetido:
"Uma moeda, uma moeda, só uma moeda..." - repetem em simultâneo e de forma incansável.
"Calma, calma, deixem-me fechar o carro e depois dou-vos a moeda..." - disse, algo aborrecido pela situação.
"A quem é que dou a moeda?" - pergunto.
"A mim!" - respondem-me as duas.
"Não, dê a mim!" - disse a mais velha.
"É, das duas outras vezes ganhaste tu...esta é para mim!" - replicou a mais nova, enquanto afastava a mão da outra.
"Vá, decidam-se!" - Comentei, fingindo pressa. Na verdade estava divertido com a cena daquelas Dupont et Dupond improvisadas.
"Dá cinquenta cêntimos a cada uma e assim ganhamos as duas..." - Sugeriu-me a mais velha.
"Não sei se tenho, ora vamos cá ver..." - Comentei, qual Pai Natal preparando-se para distribuir prendas.
"...tenho três moedas de 20, dou uma a cada e a terceira vai ser para aquela que adivinhar..."
As minhas palavras funcionaram como se lhes tivesse dito algo de extraordinário, pois o olhar ganhou um brilho que contrastava com a pele escurecida.
"Está bem!" - Responderam-me as duas entre risinhos.
Entreguei uma moeda a cada uma e escondi a terceira numa das mãos atrás do corpo, estendendo-lhes depois os meus punhos fechados:
"Em que mão está a moeda?" - Perguntei em tom de desafio.
Depois de alguns segundos de indecisão, a mais velha tocou na mão direita e disse:
"Está nesta!" - Afirmou com um sorriso largo.
A mais nova escolheu a que mão que faltava e depois de abrir as mãos, a mais velha rejubilou:
"Ganhei! Ganhei! Ganhei!..." - Rejubilou a mais velha, exibindo depois a moeda à companheira como se de um troféu se tratasse.
Mais tarde, já no regresso da Feira de Março, reencontrei as miúdas no parque, desta vez com outros dois companheiros de profissão. Ao sair do parque, reparei que a sorteada olhava para o meu carro e sorria com ar de felicidade.
Às vezes 20 segundos da nossa atenção valem tanto dinheiro...
terça-feira, março 27, 2007
Linhas Esquecidas - Vouga
Santa Maria da Feira - Oliveira de Azemeis
9 da manhã, estação de Vila da Feira. Aqui Santa Maria da Feira ainda não existe, tirando o cais de embarque, pareço regressar a 1970.
Espero sozinho. Será que enganei-me no horário? Não, uma anciã dirige-se para o cais de embarque e olha curiosa para mim. Não deve estar habituada a ter companhia...
Chega a composição e entro. Os lugares abundam, embora esperasse menos gente. Já o barulho no comboio é o esperado, por vezes parecia mesmo prestes a desintegrar-se.
Reparo que sou o único passageiro abaixo dos 40 anos. E o único com headphones.
Ou melhor, era. Em S.João da Madeira entrou um estudante de piercing e headphones com o volume no máximo. Deve estudar em Oliveira.
Oliveira d'Azemeis. Apesar da placa estar em português arcaico, a estação não parou no tempo, aqui o relógio funciona, tal como o WC, ou melhor, as "retretes".
Vejo de relance para os horários da linha e reparo que de Azemeis para baixo só existem 2 comboios, um às 15 horas e outro às....6 da manhã!!!
Mais vale dizerem logo que querem fechar este troço...
sábado, março 10, 2007
"As profs de inglês são bacanas!"
De vez em quando aparece um prof que inspira os alunos e ensina-lhes algo que não vem nos livros, foi o caso da minha professora de inglês do 9º ano.
Por detrás daquele ar de executiva com fraco por umas boas feijoadas (ai aqueles quilinhos nas ancas!...), escondia-se uma professora de inglês que fugia à normalidade, pois além de dar a matéria programada (por vezes com vísivel enfado), aproveitava o resto do tempo para distribuir pelos seus alunos pequenas pérolas musicais...
A aula de apresentação prenunciou isso mesmo: Para além dos pequenos rituais da praxe, a professora, baixinha e com algumas gramas a mais de maquilhagem, pediu aos alunos que lhe escrevessem num papel as suas bandas favoritas.
Depois da surpresa inicial, lá cumprimos o pedido da prof, ainda sem saber muito bem a razão de tal pedido...contaria para nota?
Na quarta ou quinta aula começaram as primeiras notas musicais com Bob Dylan, lemos duas ou três letras do artista (lembro-me que uma era Blowing in the wind e outra era Like a Rolling Stone), para depois ouvirmos numa cassete as músicas e terminarmos a aula com o debate acerca das letras.
Lembro-me que essas aulas alternativas compostas por Dylan e companhia eram vistas por certos colegas de turma como uma chatice, uma maçada quase tão grande como as aulas programadas.
Pérolas a porcos diriam alguns.
Talvez, mas ainda bem que ainda vão existindo estes professores leftfield, pois são estes que serão recordados anos mais tarde pelos alunos. Em Blogues.
Por isso aqui vai:
Obrigado Prof. Sílvia Gomes (wherever you are) pela inspiração e por me ter dado a descobrir os Cure, entre outros.
quinta-feira, janeiro 11, 2007
Encontro
Encontraram-se em dia de chuva torrencial e o colega de turma que os apresentou rapidamente passou para segundo plano.
A troca de olhares entre João e Ana rapidamente se transformou em desejo, o desejo em beijos e os beijos em carícias.
"Gosto tanto de te ver brilhar, tu deixas-me iluminar" - Disseram.
"Amo-te, desejo-te, quero-te" - Confessaram.
Alucinados, viveram juntos, partilharam tudo, viciaram-se no corpo do outro, desejavam-lhe o cheiro, a pele, o sabor.
Assim viveram durante meses, até que outra dependência se lhes juntou: o pó-de-anjo.
A espiral de alienação foi aumentando, deixaram de ter vida social, o mal-estar entre ambos aumentava e João deixou-a para se salvar.
Uma semana depois estavam de novo juntos, de novo o sexo, de novo o pó.
João tentou acabar mais vezes, duas, três, quatro, sempre com o mesmo resultado, a mesma recaída.
Numa das vezes em que João tentou libertar-se, Filipe ajudou-o a procurar uma saída para o buraco em que se encontrava.
Mais tarde João apresentou Filipe a Ana e disse-lhes adeus, até sempre. João ia para Inglaterra tentar esquecer o passado...
Anos mais tarde, o escultor João regressou para um jantar com amigos da Faculdade e deparou-se com Filipe e Ana, tinham-se casado há um ano e notou que Ana estava mais serena, mais confiante, mais...feliz.
Tal como ele, Ana tinha encontrado o seu lugar na roda dentada da Vida.
quinta-feira, janeiro 04, 2007
O feitiço da Lua
Numa certa Quinta de Verão, Joana vestiu-se de branco, subiu ao cimo do monte e sentou-se encostada a uma oliveira.
A Lua estava cheia e luminosa em sua palidez. Depois de procurar no Leitor a canção que lhe tinha aumentado a respiração, fez play e fixou o olhar no brilho da Lua, baixando depois os braços até tocar no chão.
Sentiu a Lua a aproximar-se e a Terra longe do seu corpo, estava num sítio estranho, cheio de criaturas esguias e fugidias. Tentou fugir mas não conseguiu, algo a retia, estava presa no éter.
Lentamente começou a vaguear entre o nevoeiro que se tinha levantado, mais espesso, mais intenso...Entrou numa floresta tropical e molhada pela chuva, prosseguiu indiferente aos sons que ouvia ao longe até passar por baixo de uma cascata.
Nesse momento acordou. Teria sido um sonho?
Laura Branigan - Self Control
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